
A mão trêmula repousada no regaço secou há pouco o suor do rosto. Pode ser que tenha pensado no amor pela última vez, como um refúgio - da mesma maneira que pensar a infância. Pode ser que sua mente vagueie pela lembrança de um rosto...
O perfil escuro na janela, recortado contra um céu de poucas nuvens, tem olhos fixos num passáro que voa partindo de seu telhado, pra atingir quem sabe a eternidade. Dentro da mente dele uma resposta trêmula se deixa prender no fundo da garganta fechada pelos anos de espera. Espera por ouvidos ávidos de respostas, de sonhos. Mas se o sonho que se pode dar não é feliz... e se a felicidade é um adágio que a vida não permitiu alcançar... O olhar do homem, desviando do pássaro para o parapeito da janela, se prende num copo de bebida. E a mulher atrás dele gostaria de estar diante de uma cabeça de vidro, fantasmagórica, através da qual os pensamentos desfilassem livres para ser vistos por qualquer observador atento. Seu coração humano é incapaz de enxergar através do escuro, mas sua alma corre tão rápido, tão rápido como se fosse possível alçar vôo, transmutar-se pássaro. Mas seu corpo permanecerá estático diante do contorno de um homem que amou há muito tempo, por muito tempo da sua vida, e que ainda agora se lhe apresenta como uma nova descoberta, como um doce desconhecido de quem é preciso aprender tudo.
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